Nascem os primeiros sorrisos
Entro num recinto acolhedor. Existia ali um magnetismo, dava a impressão de “um lugar mágico”, como uma miragem com sombra e água no deserto. Na entrada me deparo com uma criança de cor negra, magra, cabelos crespos bem encaracolados. Pela aparência física, aproximadamente, teria dois anos de idade. Ela corria para os braços de uma moça e chamando-a de tia. Fiquei surpreso, a tia era de cor branca, seus olhos destacavam-se, eram brilhantes e cheios de ternura. Adentrei mais um pouco e deparei com uma senhora, tomado de alegria, contemplei uma imagem indescritível. Foi como tivesse visto, “o sorriso de Deus” refletido no rosto daquela mulher. Naquele momento, imaginei que tipo de sentimento tomava conta dela. Ela possuía um semblante alegre no rosto. Entre suas mãos uma bacia com verduras e legumes parecia que se multiplicavam -, por um pouco remontei o cenário do milagre de Jesus, na multiplicação dos pães para cinco mil pessoas -, descobri depois qual a razão de sua alegria. Dar o pouco para alguém que não tinha nada. Então, perguntei pra mim mesmo, Deus fez ontem, porque Ele não faz hoje? Satisfeito, conclui meus pensamentos. Sim, Ele pode fazer. Não descobri ainda, mais desconfio que “O tempo possui características próprias, fazendo a ponte, entre o que é urgente e o que é prioridade”, isto é a mão de Deus agindo, usando vidas humanas para construir esperanças.
“Quando fazemos algo para Deus. A fé caminha a passos lentos, todas as vezes, quando utilizamos nossas próprias forças. E corre assustadoramente quando sentimos a força de Deus nos dirigindo.”
Essas pessoas são maravilhosas, possuem o cheiro inefável, exalam o bom perfume de Cristo. Elas fazem parte de um grupo de homens e mulheres (jovens e adultos: Os jovens intrépidos e ávidos para produzir. Os adultos, - piedosos com suas mãos firmes, desgastadas pela lida), disponibilizaram seus dons e talentos para servir o próximo. São extensões do toque suave do Senhor naqueles pequeninos. Possuem força e explosão. “… são pessoas cujo coração Deus tocara. (1 Sm 10:26). Há tempos, percebo-os como gravetos incendiados pelo fogo abrasador do Espírito Santo, qualificadas e de grande potencial no Reino de Deus, despertando, inclusive, outros a sair da comodidade de um frio e insensível banco. Percebi que estava dentro de um ambiente envolto em amor, olhando para rostinhos famintos e sedentos de carícias. Tudo isto foi suficiente para me chamar à atenção e descobrir o motivo de tantas alegrias. Para eles, foi como o desvirginar do sol, foram raios de esperança e melhores dias. De seus rostos brotavam sorrisos, meiguices e carinhos.
Nascia ali o Instituto Social Crer e Ser - como braço estendido para acolher crianças excluídas pela própria sociedade. Naquele dia surgia um projeto para crianças da comunidade, cujo objetivo é promover cidadania e ensino cristão. Na carta universal de Tiago 1.27: “A verdadeira religião, pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas nas suas necessidades, e guardar-se incontaminado do mundo”. Acreditamos piamente que foi um divisor de águas para nossas vidas. Estávamos executando na prática o cristianismo, afinal, o evangelho é também social.
A bíblia registra algumas passagens em que Jesus ao anunciar o evangelho do Reino de Deus, focalizava como uma de suas características a sensibilidade diante da dor alheia e a urgente necessidade em assistirem desafortunados. Pode ser que esse projeto surgiu pequeno, mais com a grandeza de amparar as vítimas da sociedade. Ele veio adicionando as tantas outras iniciativas e programas dentro do próprio ministério Betesda. Constatamos que houve mais abertura no leque de atividades. Como uma igreja local, temos mais um desafio, e através de algo maior que projeta-nos para fora das quatro paredes, com o propósito e permear o mundo transformando a sociedade com a mensagem de boas novas, usando como força propulsora do Evangelho Social e, simplesmente, amor. O teólogo e filósofo Francis Schaeffer disse que “Jesus deu ao mundo incrédulo o direito de julgar se somos ou não cristãos, por meio de nosso amor uns pelos outros” conforme (Jo. 13:35). Para nós serviu de estímulos. Glorificar o nome do Senhor com ações, exercendo a fé na prática. Entendemos que quando pregamos o evangelho, fazemos devido a necessidade momentânea em cada indivíduo. Não precisamos, antes, listar uma serie de estudos doutrinários. Afinal, qual o aspecto do evangelho seria mais relevante no momento? Devemos ensinar, primeiramente, todo o conselho de Deus de uma só vez? Não! Isso não. Não vou ficar fazendo deduções teológicas. O evangelho é para alcançar e transformar vidas. Mas as pessoas vítimas da dor, da fome, dos desabrigados, as vítimas de violência infantil, precisam ser cuidados. O sofrimento não tem cor, sexo, raça, ou classe social, ele é real. E muitas vezes bate à nossa porta. É instantâneo.
Preciso aproveitar o ensejo e descrever uma parte do pacto de Lausanne - A Responsabilidade Social Cristã “… a mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar, mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.”.
Por isso há em nossos corações um grande regozijo diante do Senhor. Como cristãos, não podemos ficar à margem e ignorar tudo que passa ao nosso redor. Existe um desafio social. Mesmo sabendo que Deus está no controle, há verdades e implicações sobre isso. Não queremos esbarrar em dilemas que afligem nossa consciência. Esses pequeninos não esperam somente as nossas boas intenções, misericórdias, sonhos, e pensamentos favoráveis. Tudo isso é extremamente importante. Para eles, esses momentos são cruciais de suas vidas, portanto, eles esperam algo de concreto. Querem compaixão? Sim. Querem afagos? Sim. Querem carinhos? Sim. Contudo, o alimento não pode faltar. Por tudo isso, somos gratos a Deus pela oportunidade de está no meio deles. Porque certamente Deus estar com eles. Excluídos pelo mundo e abraçados por Deus. Eis aqui o grande privilégio, pois eles são felizes. “Bem aventurados são os pobres…” no meio deles Deus está mais próximo.
“O cristianismo afirma que Deus deixou princípios para que possamos fazer da vida um poema, uma pintura ou uma lâmpada” Ricardo Gondim.
Foram setenta crianças. Não tenho palavras para descrever o espaço em nossos corações, mas sei que abrigou vários Pedros, Guilhermes, Paulos, Marias, Martas e Marcilenes , Cada uma com suas particularidades e com novos sorrisos. Que o nosso supremo Pastor possa nos conduzir pelas estradas da obediência. Vivemos numa realidade incontestável de urgência na necessidade de atos contínuos de compaixão. Demonstrar o amor de Deus. “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos”. Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. E nisto conheceremos que somos da verdade, bem como, perante ele, tranqüilizaremos o nosso irmão. (1 Jo.3:16 – 19).
“Pois Ele é que efetua em nós tanto o querer como o realizar.” (Fp. 2:13) Portanto, seja Ele dado à honra, a glória.


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